Uma aula de bondade

Uma aula de bondade

Faz alguns anos, nossos vizinhos deram sua cadela para um amigo. Não muito tempo depois, esse homem morreu e a cachorra voltou para nossa rua, só que seus antigos donos haviam se mudado. Mais magro e mais frágil a cada dia, o animal cavou um buraco sob nossa cerca, pelo qual passava para se alimentar das sobras de ração deixadas por nossos cachorros em suas vasilhas.

Com a chegada do inverno, a cadela sem dono passou a dormir na nossa antiga casa de cachorro. Um dia, meu filho adolescente me disse: “Ela vai morrer no nosso quintal!” De fato, a coitada era só pele e ossos. Mal tinha forças para andar. Depois que comecei a alimentá-la duas vezes por dia junto com meus cães, recuperou as forças e passou a conviver normalmente com os outros bichos. Decidimos, então, ficar com Chiquita (como a batizamos) até acharmos quem a adotasse.

Durante uma visita de meu filho mais velho e sua esposa, esta deu muita atenção à nova integrante do canil. Por isso, na próxima visita deles, a cachorra se mostrou tão feliz e emocionada ao voltar a vê-la que senti ciúmes. Afinal, fui eu que a salvara, a alimentara, lhe dera banho e todo o resto!

Toda aquela alegria autêntica da Chiquita ao reencontrar minha nora me fez pensar. Claro, eu a havia resgatado da fome, talvez motivada pelo senso dever ou por piedade, mas eu não lhe havia mostrado muito amor. Com essa lição, comecei a incluí-la nas minhas brincadeiras com os outros cães. Em pouco tempo, comecei a ficar na expectativa de seus saltos e carinhos toda vez que eu chegava em casa.

Até que um dia o canil municipal encontrou uma nova casa para ela e eu concordei que a levassem. Isso me deixou com o coração doído por alguns dias. Foi uma sensação parecida com a que tenho quando meus netos se vão depois de passarem uns dias de férias comigo. Eu me acostumo com o som de seu saltitar feliz e suas gargalhadas pela casa, mas, quando as aulas recomeçam, lá se vão eles, de volta para a casa dos pais. E aí fica aquela dorzinha no coração.

Ainda penso na Chiquita, oro por ela e me pergunto onde ela está. Às vezes, olho para o quintal e sinto falta das suas travessuras e demonstrações de amor.

Rosane Pereira

Rosane Pereira

Rosane Pereira é brasileira e missionária de carreira desde 1975. Viúva do também missionário Carlos Cordoba, tem oito filhos e cinco netos. Rosane é professora de inglês e espanhol, tradutora e escritora. É também sócia da Interconnect, micro empresa que combina o serviço de tradução e o ensino de línguas estrangeiras com o turismo e ecoturismo no Rio de Janeiro.

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