Uma nova chance

Uma nova chance

“Não é justo!” Essa deve ter sido a frase que eu mais disse na infância. Parecia que alguém — ou todo mundo — sempre se dava melhor que eu.

Quando entrei na pré-adolescência tinha bem desenvolvida uma mentalidade de avaliação e análise, com a qual eu cultivava a obsessão por comparar minha aparência, personalidade e habilidades com as das outras garotas da minha idade.

Terminada a adolescência, comecei a trabalhar e minha vida girava em torno de me provar capaz profissionalmente. Estava convencida de que a única maneira de ser aceita ou reconhecida seria se compensasse minha relativa falta de habilidades e experiência, com uma dedicação ao trabalho superior à dos demais. Vivia tentando “ganhar pontos” (de que forma fossem e independentemente de quem os distribuísse) e nunca estava satisfeita com as notas que eu mesmo me atribuía.

No geral, não gostava de mim mesma. Até mesmo nas coisas que, até certo ponto, achava boas a meu respeito, entendia que podiam ser melhores. Sempre via algo errado na minha situação.

Outra grande fonte de descontentamento surgiu quando passei a me achar injustiçada e derrotada porque quase todas as minhas amigas, com seus vinte e poucos anos, estavam casadas e tinham filhos, enquanto eu nem chegava perto de namorar firme. Eu não tinha certeza se era culpa de Deus ou minha, então, ficava zangada com ambos.

Eu mal aguentava ficar perto das pessoas, porque quase todas me faziam sentir inadequada de algum modo. Eu, por minha vez, encontrava defeitos em todo mundo. Não admira, minha atitude negativa afastava as pessoas de mim, motivo pelo qual eu me sentia mais detestável e desesperançada. Era um círculo vicioso.

Em um momento bastante crítico, li alguns textos sobre pensamentos negativos e como superá-los. Comecei então a entender o motivo do meu descontentamento e a procurar corrigir o problema. Perceber que eu poderia mudar foi a semente da minha libertação. Passei a refletir na minha vida de um ângulo muito diferente e a estar mais agradecida a Deus por tudo que Ele me havia dado, em vez de me queixar do que não recebera dEle. Troquei o ressentimento pela gratidão.

Também pedi a Jesus para me dizer o que Ele pensava de mim e, então, procurei ver as coisas pela Sua perspectiva. Isso me ensinou a me comunicar com Ele mais profundamente do que o fazia e, gradualmente, minha vida mudou, a começar pela minha maneira de pensar. Ouvir Suas palavras me fez entender que sou como sou porque é o que Ele quer para mim e que Seu objetivo não era me punir por meus erros.

Comecei também a participar de um pequeno grupo de oração, no qual explicávamos nossas dificuldades e orávamos uns pelos outros. Esses momentos de oração canalizaram o poder transformador de Deus para a minha vida e também criaram as condições para que eu recebesse o encorajamento e apoio de amigos de verdade, o que, em si, foi uma tremenda contribuição para que eu construísse uma autoimagem mais saudável.

Outro fator que me ajudou a ganhar confiança e me ensinou compaixão foi conhecer melhor algumas pessoas que eu antes invejava. Descobri que suas vidas não eram tão perfeitas como imaginara e que no final, “ficam elas por elas”.

Percebi que podia amar mais plenamente quando meus relacionamentos não eram prejudicados pela minha inveja. Passei a valorizar as qualidades das pessoas, agradecer a Deus por como as fez, desfrutar das diferenças entre nós e entender que são apenas diferenças, ou seja, as características de alguém não são necessariamente melhores ou piores do que as dos demais.

Demorei um pouco para me desfazer de hábitos antigos. Foram quase dois anos desde o momento em que dei meus primeiros passos rumo à mudança até a diferença na minha atitude com relação à vida se tornar perceptível, mas aconteceu. Minha perspectiva mudou tanto que posso dizer que estou muito satisfeita e não sinto inveja de ninguém. E isso é um milagre.

Hoje, depois de vários anos, tenho a felicidade de dizer que minha transformação interior foi permanente. Sei e aceito que algumas coisas realmente não são meus pontos fortes, mas não fico desnorteada quando noto algo em mim que não seja o ideal.

A vida continua melhorando sempre e estou cada vez mais feliz. Aprendi que quem procura o que há de bom e a beleza nos outros atrai coisas boas. Sei também que tenho o poder, em Jesus, de continuar progredindo nos aspectos que de fato são relevantes. É incrível quanto podemos crescer e aprender quando não nos deixamos tolher pelo negativismo e pelo medo de errar.

Jessie Richards

Jessie Richards participou na produção da revista Activated de 2001 a 2012 e escreveu diversos artigos para a revista. É também escritora e editora para outras publicações cristãs e sites da internet.

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